Ninguém vive completamente separado da terra; um tal isolamento é inimaginável. Devemos, pois, mais cedo ou mais tarde, conciliar-nos com o mundo que nos rodeia. Tenho em mente sobretudo o mundo físico, não apenas como no-lo revelam de imediato os nossos sentidos, mas também como o vamos apreendendo, com mais verdade, ao longo das estações e dos anos. Porque temos de chegar a um acordo moral com este mundo. A meu ver, não há alternativa, se quisermos realizar e conservar a nossa humanidade; o ideal ético e prático de preservação faz necessariamente parte da nossa humanidade.
Duvido que algum de nós saiba orientar-se pelas estrelas e os solstícios. O nosso sentido da ordem natural embotou-se, tornou-se pouco fiável. A esfera dos nossos instintos reduziu-se, tal como se reduziu a nossa capacidade de conceber a realidade da própria natureza selvagem. No entanto, e apesar disso, creio ser possível formularmos uma ideia ética da terra – uma noção daquilo que ela é e do que deverá ser no nosso dia-a-dia. E creio sobretudo que isso é absolutamente necessário.
N. Scott Momaday

Se durante um tempo éramos nós, os povos indígenas, que estávamos ameaçados de ruptura ou da extinção dos sentidos das nossas vidas, hoje estamos todos diante da mesma iminência de a Terra não suportar a nossa demanda. Como disse o pajé yanomami Davi Kopenawa, o mundo acredita que tudo é mercadoria, ao ponto de projectar na mercadoria tudo o que somos capazes de experimentar. A experiência das pessoas em diferentes lugares do mundo projecta-se na mercadoria, em algum tipo de mercadoria, significando isto que a mercadoria é tudo o que está fora de nós.
Ailton Krenak

Limparemos a água, aqueceremos o fogo, esfriaremos o gelo e escoraremos a terra. Ensinaremos os pássaros a voar, os peixes a nadar, os ruminantes a ruminar. Já era tempo de nos dedicarmos a tais coisas! E que poderá fazer o homem para melhorar e embelezar todo o sistema? Para que as estrelas brilhem mais? Para que o Sol seja mais radiante e jubiloso, e a Lua mais plácida e satisfeita? E não poderá ele aperfeiçoar a cor das flores e a melodia dos pássaros? – Pouco nos interessam as mais prodigiosas invenções dos tempos modernos. São um insulto à natureza.
Henry David Thoreau

Toda a nossa situação moral foi modificada pela tecnificação da existência. A tecnificação da existência é o facto de todos nós (sem o sabermos e de forma indirecta, quais peças de uma máquina) nos vermos implicados em acções cujos efeitos somos incapazes de prever e que não poderíamos aprovar. A técnica trouxe com ela a possibilidade de sermos inocentemente culpados de uma forma que não existia no tempo dos nossos pais, quando ela ainda não tinha avançado tanto. […] Embora eu não seja nenhum fanático em assuntos religiosos nem políticos, estou convencido de que a crise em que todos estamos imersos exige que reexaminemos profundamente todo o nosso sistema de valores e fidelidades. No passado, houve épocas em que os homens puderam passar pela vida sem a si mesmos fazerem perguntas muito profundas a respeito dos seus hábitos de pensamento e das suas formas de agir. Mas hoje é muito evidente que os tempos mudaram. Mais: creio que nos encaminhamos rapidamente para uma situação em que nos veremos obrigados a reconsiderar até que ponto estamos dispostos a transferir para as diversas instituições sociais (partidos políticos, sindicatos, Igreja ou Estado) a responsabilidade relativa aos nossos pensamentos e aos nossos actos. Nenhuma destas instituições é suficientemente capaz de emitir um juízo moral infalível, sendo por isso necessário pôr em questão a pretensão de qualquer uma delas a emitir um juízo moral.
Günther Anders

Numa escala ainda maior, a megamáquina modernizada tem reproduzido todas as primitivas características da antiga forma de construção de pirâmides. E tal como as estáticas estruturas físicas sustentavam a crença do devoto na validade das pretensões do faraó à divindade e à imortalidade, as novas formas dinâmicas do complexo piramidal – arranha-céus, reactores atómicos, armas nucleares, auto-estradas, foguetões espaciais, centros de controlo subterrâneos, abrigos nucleares colectivos (túmulos) – parecem igualmente validar e exaltar a nova religião. Nunca nenhuma outra religião produziu tantas manifestações de poder, levou a um tão completo sistema de controlo, uniformizou tantas instituições separadas, suprimiu tantas formas de vida independentes ou alguma vez declarou um tão grande número de adoradores que por palavras e actos testificam o reino, o poder e a glória dos seus deuses nucleares e electrónicos. Os milagres efectuados pelo sacerdócio tecnocrático são verdadeiros: mas são espúrias as suas pretensões de divindade.
Lewis Mumford

Já passámos há muito o ponto em que uma política podia ser conduzida no interior da sociedade industrial, como sua manifestação pública, adequada à lei estável e transportada por uma vontade «democrática». A única possibilidade de um agir político hoje prende-se com a recusa do sistema técnico que sustenta o industrialismo à semelhança de uma «força de lei» que intervém de cada vez que um novo processo tecno-industrial é introduzido à guisa de remédio e como se fosse um decreto de um poder executivo em tempos de excepção. No industrialismo todos os tempos tendem a ser parte do estado de excepção.
Jorge Leandro Rosa

A grande verdade do nosso tempo (que não serve para grande coisa simplesmente saber, mas sem o conhecimento da qual não podemos chegar a nenhuma verdade importante) é que as nossas paragens estão a cair na barbárie porque a propriedade privada dos meios de produção é conservada à força.
Bertolt Brecht

A ciência e a tecnologia constituem para a maioria das pessoas uma nova religião, sendo a sua ortodoxia aceite com o mesmo fervor. Questionar o monopólio que exercem sobre a razão é considerado heresia, quando não é pura e simplesmente ignorado. Por isso, vale a pena perguntar: se todos os paradigmas tendem a desgastar-se com o tempo, por que razão não aconteceria o mesmo à ciência? Uma metafísica futura, como sugeriu o poeta mexicano Octavio Paz, poderá começar como uma crítica da ciência, levantando «as mesmas questões que na filosofia clássica» e começando, não no momento tradicional, ou seja, «antes de toda a ciência, mas depois das ciências.»
David Watson

Não sei muito bem como é possível, mas a verdade é esta: sou um índio. Não o sabia antes de ter encontrado os Índios, no México e no Panamá. Sei-o agora. Não sou talvez um índio muito bom. Não sei cultivar o milho nem afeiçoar uma piroga. O peiote, o mescal ou a chicha mastigada não exercem em mim grande efeito. Mas, quanto ao resto, quanto à maneira de andar, de falar, de amar ou de ter medo, posso dizer o seguinte: quando encontrei esses povos índios, eu, que não julgava por aí além ter família, senti-me como se de repente tivesse conhecido milhares de pais, de irmãos e de esposas. […] O encontro com o mundo índio não é hoje um luxo. Tornou-se uma necessidade para quem quer compreender o que se passa no mundo moderno.
J.M.G. Le Clézio

A ideia fixa da terceira revolução industrial é esta: o que pode ser feito deve obrigatoriamente ser feito. O mundo é encarado como uma mina a explorar. Não só somos intimados a explorar tudo quanto for explorável, como temos também de descobrir a explorabilidade «oculta» em todas as coisas, inclusive no homem. A tarefa da ciência actual já não consiste em descobrir a essência secreta e escondida do mundo ou das coisas, ou as leis a que obedecem, mas sim em descobrir a possível utilização que o mundo ou as coisas dissimulam. A hipótese metafísica das investigações actuais é portanto que não há nada que não seja explorável. «Para que serve a Lua?» Nem por instantes se perde a esperança de que ela deva servir para qualquer coisa. À questão de saber o que deve ser encarado como «mundo» deram-se no decurso da história três respostas muito diferentes (o «cosmos», a «criação», o «objecto do conhecimento» ou «o conjunto dos processos físicos»). Se esta mesma questão for posta agora, a resposta só pode ser a seguinte: o mundo é «a matéria-prima». O mundo não é encarado como algo «em si», mas como algo «para nós» […] Por analogia com as vidas «que não merecem ser vividas», de que falavam os nacionais-socialistas, há existências «que não merecem existir». Em suma, para existir, é preciso ser-se matéria-prima: ser é «ser matéria-prima» – tal é a metafísica fundamental do industrialismo.
Günther Anders

A minha aposta é que vamos ser nós a desaparecer primeiro. Os índios sabem fazer muito com pouco. Nós sabemos pouco com muito.
Eduardo Viveiros de Castro

Na complexidade do presente mundo, as pessoas são confrontadas com extraordinários acontecimentos e funções que lhes são literalmente ininteligíveis. São incapazes de dar uma explicação adequada dos fenómenos provocados pelo homem na sua experiência imediata. São incapazes de conceber um quadro coerente e racional do todo. Em tais circunstâncias, todas as pessoas devem aceitar, e aceitam, na verdade, um grande número de coisas com base na fé. Estão conscientes de que os principais componentes dos sistemas complexos normalmente funcionam, de que outros especialistas sabem o que estão a fazer e de que o todo, de algum modo, encaixa num ajustamento mais ou menos bom. Mas a sua forma de compreender é basicamente religiosa, mais do que científica; só uma pequena porção da sua experiência quotidiana na sociedade tecnológica poderá ser tida como científica. Toda a gente é forçada a depender e a ter fé em questões sobre as quais tem pouca informação ou compreensão.
Langdon Winner

Os índios podem nos ensinar a viver num mundo que foi invadido, saqueado, devastado pelo homem. Isto é, ironicamente, num mundo destruído por nós mesmos, cidadãos do mundo globalizado, padronizado, saturado de objectos inúteis, alimentado à custa de pesticidas e agrotóxicos e da miséria alheia. […] Eles podem nos ensinar a voltar à Terra como lugar do qual depende toda a autonomia política, económica e existencial. Em outras palavras: os índios podem nos ensinar a viver melhor em um mundo pior.
Eduardo Viveiros de Castro

A noção de derrocada relativa ao colapso do sistema capitalista costuma estar associada a uma certa exageração premonitória e ameaçadora: chegará um momento em que tudo irá abaixo. Diferentemente do que ocorreu com as teorizações do passado, uma tal derrocada deixou de ser uma hipótese, para se tornar uma realidade, manifesta em todos os planos da vida humana. Deixou de ter cabimento prognosticar o colapso, porque o desmoronamento (económico, cultural, social, familiar, psíquico, etc.) é algo que se experiencia na vida quotidiana.
Corsino Vela
