Flauta de Luz nº 10

2023 – 352 pp. – 12 €

Director e editor: Júlio Henriques

Design gráfico e paginação: Gonçalo Mota

Pintura da capa: Miguel Carneiro

19 x 24 cm – ISSN 2183-9948

Distribuição: Antígona

No nº 10 da Flauta de Luz (2023), três ou mais conjuntos diferenciados, mas que dialogam entre si. Em destaque – iniciados por «A grande deserção em marcha», de Gaspard d’Allens, e «Aqui e agora, o nosso conto de guerra», de Jorge Leandro Rosa – «Natureza e mundo rural: inquirições» e «Activos escombros». Ensaios, artigos, entrevista, textos lit’rários, poemas, desenhos, pintura e fotos – de um amplo painel de autores e autoras portugueses & de outras paragens.

Deveríamos ver sempre a origem das coisas. Todas as tecnologias que nos últimos anos fizeram irrupção nas nossas vidas têm origem militar. Os computadores foram desenvolvidos durante a Segunda Guerra Mundial para decifrar os códigos inimigos. A Internet, como meio de comunicação em caso de guerra nuclear, o GPS para localizar as unidades de combate, e assim por diante. Todas elas são tecnologias de controlo concebidas para subjugar, não para tornar livre.

[…] A verdade é que a tecnologia militar que nos rodeia criou as condições para a emergência duma mobilização total. Doravante, seja onde for que estivermos, podemos ser identificados, chamados à ordem e, se necessário, neutralizados. O indivíduo solitário, o livre arbítrio, a democracia, tornaram-se obsoletos: a multiplicação dos dados torna a humanidade um único sistema nervoso, um mecanismo feito de configurações padronizadas previsível como um bando de pássaros ou um cardume de peixes. […] Nos anos 50, o KGB projectara um sistema para registar todas as relações de cada cidadão soviético. […] Mas o Facebook foi muito mais longe. Os californianos ultrapassaram os sonhos dos velhos burocratas soviéticos. Não há limites para a vigilância que conseguiram instaurar. Graças a eles, todos os momentos da nossa existência se tornaram uma fonte de informações. Os nazis diziam que na Alemanha a única pessoa que ainda poderia ser um indivíduo era a que dormia, mas os californianos também os ultrapassaram. Os fluxos fisiológicos das pessoas, inclusivamente o seu sono, para eles já não têm segredos. Foram transformados em algarismos; por enquanto, para gerar lucro, a partir de amanhã para exercerem o controlo mais implacável que o homem jamais conheceu. […] Nesse dia, o mundo estará pronto para o advento do Benfeitor de Zamiatine: aquele que velará por que nada mais aconteça. A máquina terá tornado possível o poder na sua forma absoluta. […] A transição far-se-á brandamente: as máquinas não imporão ao homem a sua dominação, entrarão nele, como uma pulsão, uma íntima aspiração.

Giuliano Da Empoli

Le Mage du Kremlin (Gallimard, Paris, 2022)