Falando do X FOSPA, que reúne uma rede de entidades nacionais e internacionais, em que pode este fórum contribuir para o que consideras «ideias para adiar o fim do mundo»?
Ailton Krenak − Mudando o jeito de pensar. Nós pensamos sempre reproduzindo o colonialismo. Uma lógica que é a do «progresso», uma ideia de que a gente pode progredir. Isso é bobagem. Não tem nenhuma teoria, não tem nenhuma ciência que diz que a gente pode se desenvolver indefinidamente. O professor Ladislaw Dowbor diz que a única coisa que expande indefinidamente é o câncer. Então, se o capitalismo é essa doença, a gente tem que se cuidar contra ele. Não tem que ir no papo furado do progresso. O paradigma que precisa ser mudado é essa nossa ânsia por pertencer a esses lugares ricos do mundo. Como se o mundo inteiro pudesse ser um shopping. É óbvio que não, não dá. Vai ter o shopping em alguns lugares, o resto que se dane. Essa é a lógica do capitalismo.
O Davi Yanomami fala que nós estamos nos tornando a sociedade da mercadoria, que tudo é mercadoria, inclusive os outros. Tratamos uns aos outros como se fossem mercadorias. Criando essas diferenças entre nós, por raça, por cor, por classe social, por gênero. Toda essa discriminação que a gente reproduz, atrapalha um bem-viver, um viver melhor.
Como o próprio nome diz, o FOSPA é um Fórum, e ele ganhou uma configuração nos últimos anos de ser um fórum pan-amazônico, de convocar os países da bacia amazônica a atualizar as suas agendas de colaboração, cooperação, alianças, atuar em rede, e esse ano talvez ele esteja em seu melhor momento, nesse quesito pan-amazônico. Ele deixou de ser um Fórum para atrair gente do mundo inteiro e passou a ser um fórum pra atrair os povos implicados com a sobrevivência na Amazônia. Está de parabéns, eu acho que é a melhor edição do FOSPA.
[…]É importante observar o seguinte: a economia global é um tabuleiro. Tem os lugares do mundo, tem os lugares do planeta, que já estão determinados como lugares de extrativismo do capitalismo. O capitalismo vai extrair tudo o que houver nesses lugares. Florestas, minérios, água. Vai explorar isso com uma mão ampla, uma mão longa. Não é a mão local. O imposto, as taxas, o controle sobre a riqueza que é extraída, não são feitos, e isso não é porque os governantes são omissos. É porque a história do capitalismo tem uma dinâmica, funciona assim em qualquer lugar do mundo. O capitalismo não está fazendo isso especialmente para nós, faz isso em qualquer lugar do mundo. Então, o capitalismo extrai de qualquer lugar da Terra, extrai tudo, tudo. Ele não tem racionalidade. Apesar de dizerem que a economia capitalista é racional, ela não tem racionalidade. Na verdade, ela é uma espécie de Frankstein que sai comendo tudo. Não tem racionalidade humanista.
Se tivesse, não havia uma guerra na Ucrânia disputando gás natural, disputando energia. A Rússia está dizendo assim: eu não vou dar energia para a Europa, a Europa que se dane. Acontece que a Rússia é na Europa. Que racionalidade tem uma palhaçada dessas? E nós vamos sair da vida abundante da floresta para imitar os Europeus? Nós vamos imitá-los? Eles não estão conseguindo resolver nem as questões locais deles.
Parte da intenção realizada aqui é apresentar novas concepções sobre esta realidade tradicional, sustentável e plural amazônica. Acha que o FOSPA está contribuindo para essa retomada de compreensão das ideias que você propõe?
Eu acho que está sendo uma espécie de iniciação a outras epistemologias. A gente está fazendo um trabalho na universidade, com o objetivo de alterar a veiculação de ideias dentro da universidade. Porque se a universidade reproduz a ideia colonial, a gente precisa dar um remédio para a universidade parar de reproduzir o colonialismo e começar a produzir pesquisa, saberes, conhecimento, novas compreensões. O próprio ecossistema em que a gente vive, a biosfera do planeta Terra. Quando tivermos entendido que vivemos dentro do organismo do planeta Terra, aí sim, a gente está começando a mudar o paradigma de povo disperso e indiferente ao seu próprio território. Porque se fôssemos mais implicados com os nossos territórios, os nossos inimigos não ficariam tão folgados.
E essa linguagem em audiovisual, agora, das produções de documentários, de filmes, elas estão conseguindo mostrar a luta e a resistência a partir de novos olhares, a gente vê que as pessoas se sensibilizam mais facilmente quando vêem numa tela maior, ou em imagens num roteiro bem pensado e imagens bem produzidas. Qual a importância desta nova produção audiovisual para mostrar a luta de vocês ao mundo?
Essa coisa da tecnologia é um paradoxo. Quanto mais tecnologia, parece que é melhor, não é? Acontece que para ter essa tecnologia toda é que estão comendo a Terra. Então, é como se o cachorro estivesse mordendo o próprio rabo. A gente melhora a nossa capacidade de denúncia, e os nossos inimigos melhoram a capacidade de devorar a gente.
Excertos duma entrevista de Ju Abe para a revista electrónica brasileira Ponto de Pauta (31 de Julho de 2022), por ocasião do X Fórum Social Pan-Amazônico (Belém, Pará, 28 a 31 de Julho de 2022).

